O Menino Mirrado e o Padre Sedento

Um padre andava pelo sertão a cumprir o seu magistério, ou seja, a catequese, e como estava com muita sede, aproximou-se duma cabana e chamou por alguém de dentro.
Veio então lhe atender um menino muito mirrado.

— Bom dia meu filho, você não tem por aí uma aguinha aqui pro padre?

— Água tem não senhor, aqui só tem um pote cheio de garapa de açúcar! Se o senhor quiser… – disse o menino.

— Serve, vá buscar. – pediu-lhe o padre.

E o menino trouxe a garapa dentro de uma cabaça. O padre bebeu bastante e o menino ofereceu mais. Meio desconfiado, mas como estava com muita sede o padre aceitou.
Depois de beber, o padre, curioso, perguntou ao menino:

— Me diga uma coisa, sua mãe não vai brigar com você por causa dessa garapa?

— Briga não senhor. Ela não quer mais essa garapa, ia jogar fora, porque tinha uma barata morta dentro do pote.

Surpreso e revoltado, o padre atira a cabaça no chão e esta se quebra em mil pedaços. E furioso ele exclama.

— Moleque danado, por que não me avisou antes?

O menino olhou desesperado para o padre, e então disse em tom de lamento:

— Agora sim eu vou levar uma surra das grandes; o senhor acaba de quebrar a cabacinha de vovó fazer xixi dentro…

 

O Castelo de Faria

Castelo de Faria foi uma fortaleza medieval muito próxima de Barcelos, há longo tempo desaparecida. As pedras das suas muralhas, que juncavam o monte, foram utilizadas para a construção de um convento.

A história que vou agora contar passou-se à sombra das muralhas deste desaparecido castelo e desenrolou-se no tempo do nosso rei D. Fernando. Tudo aconteceu por causa dos seus amores com a bela e ambiciosa Leonor Teles.

Estava D. Fernando para casar com a filha do Rei de Castela quando se apaixonou pela Teles, a aleivosa, como magistralmente a denominou Fernão Lopes, fazendo seus a voz e o ódio popular. A partir de então descurou por completo o contrato que fizera com Castela quanto ao seu futuro enlace, o que levou o rei do país vizinho, a par de outras razões, a desencadear a guerra. Deste modo Lisboa foi cercada e muitas outras terras assaltadas e assoladas, tal acontecendo também no Minho. E aqui começa a nossa história.

O adelantado de Galicia, D. Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de Entre Douro e Minho com um grosso exército de gente de pé e de cavalo, prendendo, matando e saqueando até às imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo. Aqui, porém, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Seia e tio d’el-rei D. Fernando, com toda a gente que pôde juntar. Foi terrível o conflito e os portugueses foram derrotados e desbaratados, caindo alguns em mãos inimigas.

Entre os prisioneiros estava o alcaide-mor do Castelo de Faria, que saíra em auxílio do conde com alguns homens de armas. Nuno Gonçalves era o seu nome. Cativo, pensava o alcaide em como salvar o seu castelo, que o inimigo exigia. Deixara a governá-lo, na sua ausência, um seu filho, e tudo levava a crer que quando aquele o visse a ferros entregaria a fortaleza para que o não matassem. Assim urdiu um estratagema e pediu ao adelantado castelhano que o levasse aos muros do castelo para parlamentar e exortar o filho a entregá-lo sem resistência.

Com um troço de besteiros e de homens de armas subiu a encosta do monte. Nas casinhas que estavam encostadas à barbacã não se via vivalma, pois a população, assim que avistara o inimigo, sumira-se no interior do castelo buscando protecção e refúgio. E aí, no terreiro, debaixo de choupanas de colmo, esperavam que o mundo sossegasse para voltarem aos seus trabalhos.

À vista do grupo que se aproximava, os besteiros e os homens dos engenhos, dentro do castelo, preparavam-se já para fazerem o primeiro lançamento quando um arauto saiu do meio da vanguarda inimiga. Fez-se um silêncio impressionante e profundo, ouvindo-se apenas:

- Moço alcaide, moço alcaide, teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adelantado de Galicia pelo mui excelente e temido Dom Henrique de Castela, deseja falar contigo de fora do teu castelo!

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou o terreiro e chegando à barbacã disse ao arauto:

- A Virgem proteja meu pai! Vai dizer-lhe que aqui estou!

Voltou o arauto ao grupo onde vinha Nuno Gonçalves e pouco depois estava este ao pé do filho. Disse-lhe então:

- Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é este castelo que segundo o regimento de guerra entreguei à tua guarda quando vim em ajuda e socorro do esforçado conde de Seia?

- É de nosso rei e senhor Dom Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.

- Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?

- Sei, ó meu pai. – E, baixinho, acrescentou:

- Mas não vedes que a vossa morte é certa se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência, pai!?

Fazendo como se nada tivesse ouvido, Nuno Gonçalves exclamou com voz segura:

- Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo sem tropeçarem no teu cadáver!

- Morra, morra o que nos atraiçoou! – gritaram os castelhanos enquanto o velho português caía varado por espadas e lanças.

- Defende-te, alcaide! – foram as últimas palavras murmuradas por Nuno Gonçalves.

Como louco, Gonçalo Nunes corria ao longo da barbacã clamando vingança.

Duríssima foi a peleja e terrível o cerco. Dentro dos muros muitos foram os populares mortos, queimados juntamente com as toscas choupanas em que se refugiavam. Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai, via-o ainda moribundo no meio dos seus matadores e ouvia a todos os instantes o Último grito do bravo Nuno Gonçalves: Defende-te, alcaide!

E o orgulhoso castelhano foi obrigado a levantar o cerco, tal a coragem com que o moço se defendia.

Mais tarde, o filho de Nuno Gonçalves, apesar de louvado e premiado pelo seu feito, solicitou a el-Rei a desoneração do cargo de alcaide e trocou as vestes do guerreiro pelas do sacerdote.

 

A Raposinha Gaiteira

Era uma vez uma raposa que tinha por compadres um grou e um lobo.
Grous, são umas aves com pernas muito altas e bico comprido e que aparecem, no inverno, no Ribatejo e no Alentejo. Certo dia lembrou-se o grou de convidar a raposa para que fosse cear com ele umas papas de milho; a raposa foi mas nada pôde comer, pois o grou apresentou-lhe as papas dentro de uma almotolia e como a raposa não tivesse bico o grou comeu as papas todas. Mas, espera aí, não sabes o que é uma almotolia? Almotolia é uma espécie de garrafa feita de folha de flandres e onde se coloca azeite para servir à mesa. Ah, também não sabes o que é folha de flandres? Ora, folha de flandres é o mesmo material de que são feitas as embalagens de atum e das quais, dantes o meninos faziam barcos. bom, mas voltemos à história: passados dias, a raposa, para se vingar, convidou o grou também para comer papas, mas desta vez comeu ela tudo, pois tinha deitado as papas numa laje e o grou não pôde comer. A raposa tomou tal fartadela que nem podia andar, e como tivesse de fazer uma viagem, pediu ao compadre lobo que a levasse às costas, pois estava muito doente. O lobo isso lhe fez e a raposa ia dizendo pelo caminho:

«Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.»

O lobo perguntava-lhe: «Que dizes tu, comadre?»
«Ai a minha barriga, ai a minha barriga.» – respondia a raposa.
Assim foram caminhando até que o lobo caiu no logro que a raposa lhe pregou e então, reparando que estavam perto de um poço, disse para a raposa: «Ah! Tu assim me enganaste! Disseste-me que estavas muito doente e vais cantando pelo caminho:

«Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.»

Pois bem, fica neste poço para não me tornares a enganar.»
E atirou a raposa ao poço. A raposa meteu-se dentro de um balde que estava na borda do poço para se tirar água, ora com um, ora com outro; de que se havia de lembrar a raposa?
Disse ao compadre: «Olha, tu fizeste muito bem em me deitar ao poço, porque estão cá em baixo coisas muito bonitas; se tu queres ver, mete-te nesse balde que aí está em cima; vens ver o que cá está e depois voltas.»
O lobo caiu novamente no logro; meteu-se no balde e foi abaixo; e ao mesmo tempo que ele ia descendo, vinha subindo o balde em que estava a raposa. Esta, logo que se viu em cima, disse para o lobo: «Fica para aí para não seres tão tolo que te fies nas matreirices que as mais raposas tão matreiras como eu te queiram impingir.»
E foi-se cantando pelo caminho fora:

«Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.»

 

O Macaco e a Viola

Passou um macaco defronte de uma escola de meninas; mal estas o viram puseram-se a gritar: olhem o macaco com o rabo muito comprido. O macaco foi a um barbeiro e pediu que lhe cortasse o rabo. O barbeiro cortou. Voltou o macaco a passar defronte da escola e as meninas desataram a rir dizendo: olhem o macaco com o rabo curto! Tornou o macaco a casa do barbeiro e pediu-lhe o rabo.
- Já o enterrei, respondeu o barbeiro.
- Pois levo uma navalha, disse o macaco.
Pegou na navalha e saiu, encontrando uma mulher a escamar o peixe à mão. Deu-lhe a navalha. Momentos depois voltou a pedir a navalha.
- Perdi-a, respondeu a mulher.
- Pois então levo uma sardinha.
E o macaco foi com a sardinha até encontrar a mulher de um moleiro a comer pão sem conduto. Deu-lhe a sardinha. Momentos depois voltou a pedir a sardinha.
- Já a comi, respondeu a moleira.
- Levo um saco de farinha.
E levou o saco de farinha. Chegou a uma escola e deu o saco à
mestra.
Momentos depois voltou a pedir o saco de farinha.
- As meninas já comeram a farinha em pão.
- Levo uma menina. I
E levou a menina a casa de um homem que trabalhava em gaiolas.
Momentos depois voltou pela menina.
- Foi para casa do pai, respondeu o gaioleiro.
- Levo uma gaiola.
E pegou numa gaiola e levou-a a casa de um violeiro. Momentos
depois voltou a pedir a gaiola.
- Partiu-se.
- Pois levo uma viola.
Saiu o macaco com a viola e pôs-se a cantar e a tocar; desta forma:
Eu não canto que não sei cantar mas leio os versos da cantiga
Do rabo fiz navalha
Da navalha
fiz sardinha
Da sardinha fiz farinha
Da farinha fiz menina
Da menina fiz gaiola
Da gaiola fiz viola
Tinglintin, tinglintin
Eu já me vou embora
Tinglintin, tinglintin
Eu já me vou embora.

 

A Madrasta

Era uma vez um homem viúvo, que tinha um filho e uma filha.
A menina andava na escola, e a professora andava-lhe sempre a dizer que dissesse ao pai para casar com ela.
A professora tinha três filhas: uma era torta, outra era coxa e a outra era cega.
A menina todos os dias ia para casa e dizia:
- Case, meu pai, com a professora, que ela dá-me bolinhos de mel.
O pai respondia-lhe:
- Ela dá-te bolinhos de mel, depois dá-tos de fel!
E o pai comprou um chapéu, trouxe-o para casa e disse para a filha:
- Quando este chapéu se estragar, é que eu caso com a tua mestra. E pendurou-o num prego.
A menina foi à professora e contou-lhe o que o pai lhe dissera.
E ela disse-lhe:
- Pois bem, hás-de trazer-me cá o chapéu.
A menina, um dia que o pai tinha saído, levou-lho, e a mestra meteu-o num forno e cortou-o todo; depois, a menina tornou a pô-Io no seu lugar.
O pai uma vez pôs o chapéu e estragou-se-lhe logo. Disse ele para a filha:
- Agora é que eu caso com a tua professora, que se estragou o meu chapéu.
Mas ainda comprou umas botas e disse:
- Quando estas botas se estragarem, é que eu caso.
A menina foi outra vez dizer à professora, e ela pediu-lhe as botas e meteu-as no forno. O pai um dia foi calçá-las e estragou-as.
Chamou a filha e disse-lhe:
- Agora é que eu não tenho mais remédio: caso com a tua professora, que se romperam as botas.
Fez-se o casamento, mas apenas se viu casada, logo a professora começou a tratar mal a menina e a fazê-la trabalhar muito.
As filhas da professora, essas, não faziam nada.
Um dia o pai comprou cinco réis de pinhões e disse: – Meus filhos, venham comigo.
E foi para floresta.
Mas o filho e a filha iam comendo os pinhões e deixando cair as cascas no caminho. Entraram na floresta, e chegando ao pé de uma árvore, disse o pai:
- Fiquem aqui, meus filhos. Fica aqui esta cabacinha. Enquanto ela bater, é que eu estou na floresta. Quando ela deixar de bater, é que eu não estou e que os venho buscar.
E foi-se embora.
Os dois ficaram sós, e a cabaça, como lhe dava o vento, estava sempre a bater. Eles olhavam para a cabaça, e o irmão não fazia senão dizer:
- Ó mana, o nosso pai já não pode estar aqui!
A menina respondeu-lhe:
- Mas a cabaça ainda está a bater!
- É porque lhe dá o vento, disse o irmão.
Resolveram-se, afinal, a sair da floresta, porque já era quase noite e foram seguindo as cascas dos pinhões, que tinham vindo a deixar pelo caminho. Enquanto as viram, foram bem; depois as cascas faltaram, e eles perderam-se.
Ao anoitecer encontraram uma velhinha, que lhes disse: – Ó meninos, que fazeis aqui?
Eles responderam:
- Estamos aqui, porque o nosso pai nos trouxe para a floresta, e deixou-nos ficar sós; disse-nos que, enquanto uma cabaça batesse, é que ele estava na floresta, e que quando ela deixasse de bater, é que já não estava, e nos vinha buscar. Mas a cabaça batia por causa do vento, e ele foi-se embora.
A velhinha era uma fada, e disse-lhes: – Ora venham comigo, meus meninos.
Ao menino pô-lo a trabalhar numa casa de lavoura, e à menina, levou-a para casa.
Deu-lhe uma bacia e um raminho de flores, e disse para ela:
- Olhe, a menina ponha-se aqui a esta janela, e com este raminho de flores e com esta bacia, diga: Raminho de intingil, isto já são horas do meu amorzinho vir!
A menina assim fez.
Todos os dias se punha à janela, com o ramo e a bacia, e dizia:
- Raminho de intingil, isto já são horas do meu amorzinho vir!
Imediatamente aparecia um passarinho, e deixava-lhe muito dinheiro.
Depois ia-se embora outra vez. A menina, com este dinheiro, comprou muita coisa, e já tinha muitas jóias e estava muito bem vestida.
A fada dizia-lhe sempre que, quando se visse em alguma aflição, que chamasse por ela.
Uma vez, estava a menina muito bem vestida à janela.
E quem havia de passar? Uma das filhas da professora – a torta. Olhando para a janela, viu a menina e foi dizer à mãe como ela estava bem vestida.
A professora, muito admirada, perguntou:
- Então ela tinha ficado na floresta e os bichos não a comeram?!
A filha respondeu:
- Eu não sei, ela lá estava à janela e muito bem vestida!
Daí a dias foi a coxa, e ao tempo que ela ia a passar, viu a menina muito bem vestida à janela com o ramo de flores e a bacia, e ouvi-lhe dizer: «Raminho de intingil, isto já são horas do meu amorzinho vir!», e depois viu vir o passarinho e deixar-lhe muito dinheiro.
A coxa veio para casa, e a mãe perguntou-lhe:
- Então viste alguma coisa?
A filha respondeu:
- Vi-a à janela, muito bem vestida, mas não vi mais nada!
E ela não disse que tinha visto o passarinho vir e trazer-lhe muito dinheiro. A professora, então mandou a cega. Ela foi, ouviu a menina dizer: «Raminho de intingil, isto já são horas do meu amorzinho vir», mas veio para casa e não disse nada.
A torta disse, então:
- Pois agora vou lá outra vez, e hei-de ver alguma coisa! E levou um lenço cheio de vidros, sem dizer nada.
Chegou lá, escondeu-se, e ouviu a menina dizer as palavras do costume e vir o passarinho. Assim que o viu, a torta deitou-lhe o lenço de vidros.
O passarinho ficou todo cortado e caiu dentro da bacia, a escorrer em sangue. A menina não viu quem tinha sido, mas, muito triste, chamou pela fada. A fada veio e disse-lhe:
- Ah, se me chamasses mais cedo, dava-lhe vida; agora não posso, que ele está morto.
A menina chorou muito pelo passarinho.
Um dia estava ela à janela, e passou um príncipe. O príncipe, mal a viu, disse:
- Oh! Que linda menina!
Entrou e perguntou à menina se queria casar com ele. A menina disse-lhe que não dizia nada, sem falar com a fada. Chamou por ela e contou-lhe o que o príncipe lhe tinha dito. A fada disse que sim, que podia casar. Casaram e foram muito felizes sempre.

 

Tu ou eu?

Havia um príncipe que ia todos os dias à caça na companhia de um conselheiro, de quem era muito amigo. Um dia teve o príncipe sede e mandou o conselheiro à procura de água.
O conselheiro foi a uma cabana e pediu água para o príncipe.
Deram-lhe um cucharro de água pelo postigo da porta. A mão que segurava o cucharro era tão branca e tão bem torneada, que deu nas vistas do conselheiro, que foi contar ao príncipe o que tinha visto. Foi o príncipe em pessoa levar o cucharro, e como a pessoa que lho recebera declarasse que não podia aparecer por estar quase nua, o príncipe entregou-lhe a própria capa e apareceu-lhe então uma formosa jovem. Ficou o príncipe encantado na formosura da jovem e ali voltava quase sempre. Um dia conheceu ele que a jovem estava muito triste. Perguntou-lhe o príncipe o motivo por que estava tão triste e ela respondeu-lhe que se sentia grávida.
Ora a este tempo o príncipe levara para casa da jovem uma criadita de oito anos que fazia os recados.
Tendo a jovem participado ao príncipe o seu estado de gravidez, ele respondeu:
- Se nascer um menino caso contigo, se uma menina, dou-te dinheiro para viveres feliz toda a vida, mas não caso contigo.
A criadita, embora de oito anos, tomou atenção na resposta do príncipe.
A jovem deu à luz uma criança do sexo masculino; e a criadita, logo que soube do nascimento do menino, foi em procura do príncipe. Soube que estava em casa de um conde e foi ali em sua procura.
Quando anunciaram ao príncipe que uma criança lhe queria falar, respondeu: ela que entre.
A criadita entrou e viu o príncipe cercado de cavalheiros e senhoras.
Aproximou-se do príncipe e disse:
Sim ou não?
o príncipe respondeu: tu ou eu.
Ela retorquiu: tu que eu não.
O príncipe disse: vai que eu vou.
Ninguém compreendeu aquele diálogo, mas o príncipe montou no seu cavalo e foi estar com a jovem que dera à luz um menino. Tanto o príncipe como a jovem ficaram admirados da esperteza da criadita, e quando, dias depois, o príncipe casou com a jovem e perfilhou o filho, a criadita foi nomeada aia da nova princesa, que sempre se mostrou muito reconhecida à sua companheira.

 

Pedro Sem

Defronte dos jardins do antigo Palácio de Cristal, no Porto, existe ainda hoje uma torre medieval à qual chamam Torre de Pedro Sem. A ela liga o portuense uma lenda do tempo em que as naus chegavam da Índia carregadas de riquezas.
Antes porém de contar a lenda torna-se necessário precisar um pouco da verdade histórica ligada à torre e ao seu possuidor.
Pêro do Sem – sendo «Pêro» a forma medieval do nome Pedro – foi chanceler-mor do rei D. Afonso IV, pelo menos a partir de 1336. Era doutor em leis e jurisconsulto, e ocupou aquele cargo até 1341, pelo que consta em documentos da chancelaria real por si assinados. Descendentes seus continuaram a deter o cargo de chanceler-mor e, como se lê em documentos testamentários já do século XV, Martim do Sem, seu bisneto, veio a legar ao seu morgado, entre outros bens, a quinta da Torre de Pêro do Sem.
Como parece evidente, uma vez que a lenda que se vai ouvir relata se passa no século XVI, o Pêro do Sem histórico nada tem a ver com o protagonista lendário.

Pois conta a lenda que Pedro Cem vivia no seu Palácio da Torre, no Porto, na época em que as primeiras naus começaram a chegar da Índia carregadas de especiarias várias, tecidos finíssimos, perfumes exóticos. Pedro Cem era mercador, muito rico mas sem títulos nobiliárquicos, facto que muito o incomodava, o diminuía. Mandara à Índia naus que armara à sua própria custa e nas quais depositava íntimas esperanças de aumento de fortuna e, quem sabe, pudesse então ascender de qualquer modo a essa categoria social que lhe estava vedada por nascimento.
Pedro Cem era também usurário, emprestando dinheiro a juros muito altos, não se importando com os sentimentos e a miséria que muitas vezes levavam os seus conterrâneos a pedir-lhe dinheiro emprestado. Por isso o seu Palácio da Torre era uma espécie de museu onde existiam, com muito prazer seu, os tapetes mais raros, as porcelanas mais finas e várias baixelas de ouro ou prata, onde se comprazia em servir os seus inúmeros convidados e amigos.
Estavam as suas naus para chegar quando conseguiu realizar a máxima ambição da sua vida: adquirir nobreza. Aconteceu tudo, como é evidente, por causa de empréstimos que há tempos vinha concedendo a um certo nobre arruinado. A quantia emprestada chegara a um tal montante que Pedro Cem decidiu jogar a sua cartada: ou lhe era paga a dívida e os juros respectivos ou a justiça real interviria a seu favor. Porém, a dívida poderia ser perdoada e esquecida mediante um simples contrato de casamento com a filha única do dito nobre, contrato que incluiria como dote da donzela todos os bens hipotecados e os que ainda não estivessem vinculados. Sem alternativas, o nobre senhor aceitou as condições impostas pelo usurário e celebraram-se os esponsais.
A lenda conta-nos que as festas dos esponsais duraram quinze dias consecutivos e que foi nessa altura, era Primavera, que lhe vieram anunciar que as suas naus se preparavam para entrar na barra do Douro. Eufórico, reuniu os seus amigos e convidados e subiram todos ao terraço da torre, para contemplarem a visão magnífica das naus de velas enfunadas a entrarem no rio. Arrebatado pelo espetáculo e antegozando todo o ouro, pedras preciosas e outras maravilhas que em breve tocaria e acariciaria, Pedro Cem bradou:
- Agora, desafio o próprio Deus a que me faça pobre!
Pela força do vinho, que corria a rodos na festança, ninguém deu pela blasfémia. Desceram as escadas e voltaram aos salões a fazer tempo para se deslocarem à praia assim que as naus ancorassem e fosse iniciada a descarga dos porões.
Entretanto, o céu, que estava azul e límpido, começou a toldar-se, primeiro de pequenas nuvens cinzentas e, em breve, ficou completamente negro, ameaçador.
Uma rabanada súbita de vento fez bater as portadas das janelas escancaradas da torre, à mistura com um trovão terrificante, e só então os convivas deram pela tempestade que se iniciava. Lá fora, a chuva começara a tamborilar sobre as pedras até que, de repente, desabou a cântaros como se uma nascente tivesse talhado com esforço uma abertura por entre as nuvens.
Pedro Cem começou a inquietar-se e, subitamente, lembrou-se das naus a entrarem na barra. Correu ao terraço e, completamente encharcado, presenciou um espetáculo mas desta vez aniquilador. À luz dos relâmpagos ininterruptos, as naus vogavam desgovernadas empurradas pela ventania sinistra e pelas ondas em fúria, entrechocando-se, submergindo uma a uma na foz do rio.
- Maldição, maldição! – rugiu entre dentes Pedro Cem.
Repentina e simultaneamente, um raio desceu ziguezagueando do céu negro e um trovão ribombou sob os pés de Pedro Cem, abanando a torre até aos alicerces. A casa fora atingida por uma faísca, que fez deflagrar um incêndio, facilmente alimentado pelo mobiliário, tapetes e tecidos finos. A tempo fugiram os convidados daqueles esponsais de má morte, fugiu a noiva, fugiu Pedro Cem. Da torre só sobraram as paredes chamuscadas, semicalcinadas. Num instante as forças indomáveis da Natureza consumiram todos os bens do homem que se sentira tão rico e poderoso que ousara desafiar o próprio Deus.
Passados meses, esquecido que fora o orgulhoso e rico Pedro Cem por todos os seus amigos tão assíduos outrora, nas redondezas da velha torre o silêncio lúgubre do local era cortado pelo murmúrio lamuriento e humilde de um pedinte esfarrapado que dizia aos raros passantes:
Dê qualquer coisinha ao Pedro Sem, que já teve e agora não tem …

 

Pedro Preguiça

Havia um rapaz, que era muito preguiçoso. Um dia mandou-o a
mãe ir buscar lenha mas ele não quis ir. Ela prometeu-lhe então um pão e ele foi. Depois de fazer um molho de lenha, sentou-se em cima. Apareceu-lhe, então, um peixe que lhe disse: pega-me no rabo e lança-me ao mar, que eu faço com que o molho te leve, e te prometo ajudar em tudo, logo que me chames.
Pedro lançou o peixe ao mar e colocou-se em cima do molho, que se pôs a andar.
Chegou à cidade, por onde tinha de passar, e a princesa pôs-se a rir de ver o rapaz, a cavalo no molho de lenha. Pedro olhou para a princesa e disse:
- Ah, ri de mim! Pois hei-de pedir ao meu peixe que faça que eu
tenha da princesa um filho.
Efectivamente logo que o rapaz chegou a casa pediu ao peixe que a
princesa tivesse um filho mas com um bilhete na mão, dizendo que quem o tirasse era o seu pai.
Passado tempo era notório que a princesa, sendo solteira, tinha um
filho com um bilhete que dizia: quem o tirar da mão do menino é seu pai.
O rei impôs a toda a gente que fosse experimentar se tirava o bilhete, mas ninguém conseguiu tirá-lo. Foi o Pedro e tirou o bilhete. Foi imediata-
mente preso juntamente com a princesa e o filho.
Na prisão perguntou a princesa ao Pedro como fora que ela tivera um
dele um filho; e Pedro contou-lhe a história do molho de lenha e o pedido que fizera ao peixe.
Fazes-me um favor? . pediu a princesa
- Faço.
- Pede ao peixe que me dê o mesmo poder que te deu.
O peixe, consultado por Pedro, respondeu que sim e este
foi logo dar à princesa a resposta. Foi ela para o seu quarto,
chamou o peixe e perguntou-lhe se de Pedro podia fazer-se um homem
inteligente e sábio. O peixe disse que sim. Então a princesa, que era
muito inteligente e de muito saber, ensinou a Pedro tudo o que sabia.
Entretanto o pai da princesa era de cada vez mais rigoroso com
ambos: de dia para dia aumentavam os castigos na própria prisão.
Um dia chamou a princesa o peixe e pediu-lhe que formasse um
palácio e um jardim muito rico e uma pereira com pêras de ouro no centro do jardim, e logo que seu pai passasse debaixo da pereira lhe caísse no bolso uma pêra de ouro, sem que ele desse por isso nem os seus companheiros a vissem.
No outro dia estava formado um lindo palácio e um belíssimo
jardim com um pereira de ouro no centro e tudo defronte do palácio
do rei.
Correu logo a notícia do palácio e do jardim, e toda a gente os foi
visitar. Foi também o rei com toda a corte, e logo que avistou a pereira proibiu que ali fosse alguém colher pêras. Apenas o rei passou junto da pereira caiu-lhe a pêra no bolso e ninguém viu nem o rei sentiu.
Então a princesa teve artes de se disfarçar e de iludir os guardas e
apresentar-se ao rei, queixando-se de que lhe tinham roubado uma pêra da pereira.
Quem roubou a pêra? perguntou o rei muito zangado.
- V. Majestade – disse a princesa.
- Como podia roubar a pêra se fui eu que proibi que colhessem da pereira as pêras?
- Na algibeira de Vossa Majestade está a minha pêra.
O rei meteu a mão no bolso e encontrou a pêra.
- Como podia roubar a pêra se disso não tive consciência?
- Do mesmo modo por que tive um filho sem consciência própria, respondeu a princesa, dando-se a conhecer.
Ao mesmo tempo apareceu o filho da princesa e pôs-se a chorar e a
abraçar as pernas do avô.
O rei compreendeu a inocência da filha e fez as pazes com ela.
Pedro veio também para o palácio e revelou tanta inteligência e saber
que foi escolhido pelo sogro para comandante geral dos seus exércitos.
O neto cresceu e foi um grande rei. Não teve irmãs.

 

Os Salpicões do Padre

Noutros tempos em algumas paróquias era obrigatória a confissão na Semana Santa. Chegado o Domingo de Páscoa, havia mesmo padres que se recusavam a visitar as casas onde morasse alguém que não cumprira essa obrigação.
Muitos sacerdotes, já com bastante idade ou cansados de tantas confissões em tão pouco tempo, por vezes optavam por confessar os paroquianos na sua própria casa, nalguns casos quando já estavam deitados na cama.
Assim aconteceu em certa aldeia transmontana, onde um velho padre recebeu um paroquiano pouco dado às regras da igreja, e que só mesmo no fim se resolveu a ir cumprir essa obrigação.
O sacerdote tratou por isso de lhe aplicar um longo sermão:
- Não faças isto, não faças aquilo… – e por aí fora.
O homem, enquanto o ouvia ajoelhado junto à cama, foi apalpando o soalho debaixo desta, e descobriu que o padre guardava ali o fumeiro. Fumeiro, o sítio onde estão os chouriços a curarem, a ficarem bons. Por isso, enquanto o padre falava, ele puxava, puxava, e desse modo ia embolsando como podia os salpicões e os chouriços uns atrás dos outros. Por fim, quando o padre estava para lhe dar a absolvição, o homem interrompeu-o, dizendo:
- Ai, senhor padre, que ainda me falta confessar mais um pecado!
- Então diz lá – convidou o padre
- Roubei uns salpicões e uns chouriços.
- Mas isso não se faz! – reagiu o padre. – Primeiro tens de ir dá-
los ao dono, e só depois é que te posso dar a absolvição.
- E se eu lhos der a si? – propôs o homem.
- A mim?! Tem mas é juízo! Podia lá eu ficar com salpicões e chouriços roubados?..
- E então que faço eu, se já os ofereci ao dono e ele não quis? – Bem, nesse caso, fica com eles. E vai com Deus!… – respondeu
o padre, fazendo com a mão o sinal da cruz.
E o homem lá foi embora todo satisfeito. Carregado de salpicões e chouriços e aliviado de pecados.

 

Berliques-Berloques

Numa terra muito longe havia dois irmãos: um muito rico, o
outro pobre de fazendas e de espírito. O rico matou numa ocasião
dois porcos gordos, e como o pobre nada tinha disse a mulher deste ao
marido: vai a casa de teu irmão e pede-lhe um bocado de carne. Foi e o
rico respondeu:
- Leva esse pedaço, é como se a desse ao diabo.
O pobre percebeu nesta resposta que a carne era para o diabo e
andou em procura do inferno para se desempenhar da missão. Encon-
trou no caminho uma velhinha que perguntou aonde ia.
- Vou ao inferno levar este bocado de carne ao diabo a mandado
do meu irmão.
- Pois vai por este caminho e não venhas de lá sem trazer o anel
que o diabo traz no dedo. – disse a velha.
- Para que me serve o anel?
- Para conseguires o que te apetecer, respondeu a velhinha.
Foi o pobre, chegou ao inferno, e entregou ao diabo o bocado de
carne. Agradeceu o diabo a oferta, e deu-lhe de presente uma caldeirinha assim como um alguidar.
- Para que me serve isto? – perguntou o homem
- Quando quiseres castigar alguém ou queimar alguma coisa basta meter os pés lá dentro. – explicou o diabo
- Eu quero o anel que o diabo tem no dedo, disse o homem.
- Isso é impossível; não to posso dar porque é do meu irmão, que está lá dentro na posse da carne que tu trouxeste.
O homem então meteu os pés na caldeirinha; levantou-se uma
grande ala, que queimou o diabo. Em seguida dirigiu-se para dentro,
onde estava o irmão do diabo. Logo que ali chegou disse ao diabo que
queria o anel.
- Não te dou esse anel, porque é do meu irmão mais velho, que o
traz no dedo, mas dou-te estes berliques-berloques. Quando queiras destruir ou castigar alguém, que esteja longe, basta que digas: berliques-berloques, vão a tal lugar castiguem e destruam tudo.
O homem recebeu a dádiva, mas em seguida meteu os pés na caldei-
rinha; saiu uma ala, que matou o diabo. Logo que viu este diabo morto,
serviu-se dos berliques-berloques que foram matar o diabo mais velho e
trouxeram-lhe o anel que tinha no dedo.
Saiu o homem do inferno, levando consigo a caldeirinha, os
berliques-berloques e o anel. Quando chegou a casa disse para a mulher:
- Mulher, estamos felizes, temos tudo quanto quisermos: isto é
uma mina (e mostrou o anel) e isto livra-nos dos inimigos (apontan-
do para a caldeirinha e para os berloques).
E acompanhou estas palavras das seguintes:
- Anel, pelo poder que tens, forma aqui uma bonita casa, e na sala de jantar põe à mesa as melhores iguarias.
E assim sucedeu. Daí em diante o que fora pobre enriquecia a olhos
vistos.
O irmão rico andava intrigado com os progressos do pobre. Um
dia mandou a mulher a casa do irmão no intuito de apurar como lhe
viera tanta riqueza.
Ora o marido pobre tinha recomendado à sua mulher segredo em
tudo; mas tantas perguntas lhe fez a cunhada, que disse consistir a origem da sua riqueza num anel que seu marido mandara fazer.
Levou a cunhada esta resposta e logo mandou fazer um anel semelhante ao que vira no dedo da cunhada. É claro, este anel não deu resultados alguns.
Então voltou a mulher do irmão rico e disse-lhe que lhe deixasse ver bem o anel para mandar fazer outro igual. A mulher do pobre caiu no laço, e a rica trocou-o pelo seu, entregando à pobre o anel que não tinha valor.
Foi para casa e mostrou o anel ao marido. Este pegou no anel e
disse:
- Pelo poder que tens apresenta-me aqui um palácio melhor do que o do rei, e que toda a gente real se sente à minha mesa, coberta das mais ricas iguarias.
E assim aconteceu. Estavam todos à mesa real ouviram bater à porta
da rua. Foi um criado saber quem batia e veio dizer que o irmão do dono da casa lhe queria falar.
- Hoje não falo com ninguém, respondeu o rico, enfatuado de ter à
sua mesa as pessoas reais.
Ora o irmão pobre, vendo que o rico o não queria receber, zangou-
-se. Veio para casa e disse:
- Berliques-berloques, pelo poder que tens, vão imediatamente a casa de meu irmão, partam e escangalhem tudo, ficando todos deitados no chão, enquanto meu irmão me não restituir o anel.
E assim aconteceu. O rico, vendo que se não podia levantar e que as
pessoas reais se conservavam estendidas por terra, entregou ao irmão o anel.
O rei, convencido, pelo rico, de que fora o irmão deste, o pobre, a
causa de ele cair no chão, quando estava à mesa, mandou imediatamente dois soldados prendê-lo; mas apenas estes chegaram à porta do pobre e este soube a que ali iam, meteu os pés na caldeirinha, e imediatamente foram castigados pelo fogo.
Tornou o rei a mandar mais soldados e lá ficaram queimados. O rei estava já pasmado destes desastres, e conhecendo quanto teria a lucrar com um homem daquela têmpera ao seu serviço, mandou-o chamar ao palácio, prometendo-lhe prémios em vez de castigos.
Foi o irmão pobre à presença do rei, e este propôs-lhe comandar as suas tropas numa guerra contra outro rei, seu vizinho. O pobre aceitou a proposta. Dias depois apresentaram-se às portas da cidade as tropas inimigas no intuito de tomar dela posse, mas o irmão pobre, só e sem mais soldado algum, apresentou-se e disse:
- Berliques e berloques, a eles; caldeirinha, já tudo em deban-
dada.
E enquanto o comandante teve os pés na caldeirinha, foram tão
temíveis as alas de fogo, e foram tão grandes os destroço, causados pelos berliques e berloques, que os soldados inimigos se puseram em debandada.
O rei vitorioso tomou em tanta consideração o seu novo comandante que não mais o deixou sair do palácio, trazendo a mulher para
viver na companhia, como o marido pediu.
O irmão rico ficou sempre ignorado e esquecido.